[Documentário] A Revolução Francesa (The French Revolution) 2005

The French Revolution

Introdução

Um homem se ergueria para insuflar uma nação contra um rei vacilante e uma rainha odiada, e uma nova república nasceria do sangue. O sangue da Revolução Francesa.1794, a prisão de Conciergerie, fortaleza impenetrável às margens do rio Sena em Paris, úmida e infestada de ratos, era conhecida como “Antecâmara da morte”; lá dentro, a voz da jovem nação seria silenciada. Enquanto seu cabelo era cortado deixando nu seu pescoço para a lâmina da guilhotina, Maximilien Robespierre preparava-se para pagar o preço do cataclisma que causara, a explosão de eventos que se tornou a Revolução Francesa.

“A Revolução foi esse momento extraordinário em que as pessoas acharam que podiam refazer tudo na sociedade. Não só a política, instituições, mas também a natureza humana.”

“A Revolução Francesa é a encruzilhada do mundo moderno em que tudo se volta para uma direção diferente.”

A Revolução viu uma terra feudal dar as costas para a tradição aristocrática e enveredar por um novo e violento caminho rumo ao futuro. Isso abalaria as fundações da Europa e seu impacto cruzaria os mares.

“A Revolução é o evento mais importante na história ocidental. Há desdobramentos importantes como a Revolução Industrial, como o capitalismo. Mas como evento, não há nenhum mais importante.”

“Foi a Revolução que abalou mais as coisas. Ela se livrou da Igreja, da religião, da nobreza, do rei, de todas essas coisas.”

A Revolução Francesa traria pão para o pobre e democracia à França, e estabeleceria uma nova ordem na sociedade. Mas o progresso custaria caro.

“Foi um momento de incrível ambição, de incrível esperança, que depois se tornou essa tragédia horrenda.”

Agora derrotado, Robespierre, dois dias antes, estivera no topo do mundo, presidindo a maior e mais sangrenta revolução que a Europa já conhecera. Tão fiel aos seus ideais que era chamado “o incorruptível”, tão poderoso que um mero discurso seu poderia apavorar uma cidade inteira. Orador sem igual, as palavras de Robespierre eram suas armas. Agora, silenciado por uma bala na mandíbula, ele esperava pelo fim rápido e brutal que trouxera a tantos outros. A Revolução devorava seus próprios filhos.


Capítulo 1
A união de Habsburgos e Bourbons

Na primavera de 1770, ninguém imaginava os dias turbulentos que se aproximavam. Os salões dourados do palácio de Versalhes reluziam com as multidões da corte real. Concluído em 1682, Versalhes foi a obra prima do rei Luís XIV. Para se distanciar dos súditos, ele transferiu a capital da França para este vilarejo a 19 quilômetros de Paris, onde construiu o mais magnífico palácio de toda a Europa. Por 100 anos fora a sede da intocável monarquia francesa, e agora, era cenário de um importante casamento. O neto e herdeiro de Luís XV, o príncipe Luís dos Bourbons, estava prestes a se casar. Aos 15 anos de idade, Luís era tímido e hesitante, com poucas das qualidades que se espera de um futuro rei, muito menos de um marido.

“Luís era gorducho, tímido, um garoto de quinze anos inepto e sem graça. Madame Du Barry (que foi amante de Luís XV) chamou-o de garoto gordo e mal educado. Basicamente era apenas desajeitado.” Michael Farquhar, autor de “A treasury os royal scandals”.

“Era difícil para Luís XVI tomar decisões. Ele sempre era persuadido pela última pessoa que lhe falava, e essa não é uma boa característica de um governante.” David Bell, professor da John Hopkins University.

O casamento de Luís era uma união política entre a família real austríaca, os Habsburgos, e a sua, os Bourbons. O casamento simbolizava o fim de uma antiga rivalidade e o início de novos vínculos regionais. A jovem noiva chegou à França, era uma bonita garota de 14 anos, de grandes olhos. Maria Antonieta.

“Maria Antonieta era uma arqueduquesa da Áustria. Era a filha mais nova da imperatriz Maria Teresa. Ela veio à França por causa de um casamento arranjado que representava uma grande inversão de alianças, pois pela primeira vez, a França e a Áustria não era inimigas, mas aliadas.” William Doyle, professor da University of Bristol.

Maria foi à França por um gesto político, mas como adolescente, pouco lhe interessava a política.

“Quando Maria Antonieta veio à Versalhes, ela era muito jovem. Não sabia muito dos costumes do país para onde ia, não conhecia a corte. Era uma garota obstinada e cheia de vivacidade, mas ainda assim, só uma garota.” David Bell

“Quando chegou à Versalhes, ela era uma adolescente. Tinha cabelos louros e olhos azuis. Era bonita. E gostava de ser atraente para as pessoas, e veio determinada a conquistar o marido e a nova família.” Evelyne Lever, autora de “The last queen of France”.

Na noite do casamento houve uma tempestade agourenta, mas do lado de dentro, a grandiosidade da cerimônia iluminava o palácio, enquanto os recém-casados dirigiam-se ao dormitório real. Em uma cerimônia que simbolicamente assegurava a concepção de um herdeiro, os cortesãos estavam presentes quando o constrangido casal real despontava no leito nupcial pela primeira vez. O entusiasmo e as expectativas eram grandes, mas ao cair das cortinas, ficou claro que o herdeiro não seria produzido tão facilmente.

“Luís não tinha interesse em governar, e nem tampouco em fazer amor. Ele não ligava para a esposa nas primeiras noites, e nem mais tarde, no casamento.” Jack Censer, professor da George Mason University.

Muitos anos passariam antes que o casamento fosse consumado. A falta de um herdeiro gerou fofocas na corte e perseguiu o casal anos a fio. A festa de casamento continuou por dias, mas fora dos portões de Versalhes havia pouco motivo para celebrar. Anos de desgoverno monárquico haviam deixado o povo francês miserável e faminto. Quase dez anos antes, o rei Luís XV perdera a Guerra dos sete anos contra a Inglaterra por territórios na América do Norte. O mal sucedido conflito quase arruinou a França em termos de dinheiro e prestígio, deixando os cofres da nação vazios embora sua população crescesse. Como já não havia pragas, menos pessoas morriam, porém, mais e mais estavam famintas.

“A França cresceu de 20 para 26 milhões de pessoas no século XVIII, após ter crescido só 1 milhão nos séculos precedentes. Isso criava uma tremenda tensão, e havia muita ansiedade.” Michael Farquhar

Quase quatro anos após o casamento real, o avô de Luís perdeu sua batalha final contra a varíola. Luís XV morreu como um rei derrotado e impopular que deixava o país à beira do caos. Em uma suntuosa cerimônia, o jovem Luís assumiu o trono e foi coroado rei Luís XVI. Apesar da grandiosidade da coroação, Luís sabia-se lamentavelmente despreparado para tal tarefa.

“Luís XVI, no momento em que seu avô morreu, e se viu rei, não sabia o que fazer, como se o mundo caísse sobre ele. Embora educado para ser rei, não se sentia pronto para tal.” William Doyle

Para um reino em crise, Luís XVI era o pior homem a quem recorrer. O rei de 20 anos rezava “Proteja-nos Senhor, pois reinamos jovens demais”. Abrigados em seus apartamentos em Versalhes, Luís e Maria começaram suas novas vidas como jovens monarcas, enquanto a apenas 19 quilômetros, em Paris, outra nova era surgia. Uma era em rota de colisão com a própria monarquia. Uma perigosa nova era de idéias, a era do Iluminismo.


Capítulo 2
O nascimento do Iluminismo

Com a chegada da carruagem à prestigiosa universidade “Luís o Grande”, em Paris, multidões agrupavam-se para ter um vislumbre da realeza. Era o dia de dar boas vindas ao recém-coroado Luís XVI e sua esposa. À frente do comitê de boas vindas estava um promissor estudante de Direito, Maximilien Robespierre.

“Quando Robespierre era estudante, o rei visitou a universidade e Robespierre leu um discurso em latim para o rei. Ele de fato falou com o rei quando era adolescente.” William Doyle.

Enquanto Robespierre lia seu monólogo latino, o rei mal reparava no garoto. Porém, anos depois, seus destinos se cruzariam de novo, em circunstâncias muito diferentes e sinistras.

“Foi um desses rituais comuns em escolas, mas esse foi cheio de ironia, pois Robespierre homenageava o homem que mais tarde mataria.” David Bell.

Por enquanto, as boas vindas foram calorosas e a bajulação sincera. A visita dos monarcas pode ter conquistado o coração das pessoas, mas a mente delas inclinava-se na direção oposta. Desde a Idade Média, a sociedade européia dividia-se em três classes, ditadas pelo nascimento, e havia um abismo entre a riqueza, da aristocracia e do clero, e a pobreza, dos camponeses. Então, no florescer do século XVIII, a razão e a ciência uniram-se para desafiar essa tradição arcaica. Arrastada numa corrente de inovação e literatura de vanguarda, Paris tornou-se o centro filosófico do mundo. A cidade pulsava de conhecimento e irradiava possibilidades. Era o iluminismo.

“O Iluminismo ensina a não confiar na autoridade, a não confiar em nada dito por outrem. A pessoa deve pensar por si mesma, experimentar por si mesma.” William Doyle

“No Velho Regime europeu, dizia-se às pessoas o que deveriam pensar. Informação vinha de cima, dos governantes, dos padres. E a idéia de que alguém podia mapear o conhecimento humano e então ter acesso a ele, era revolucionário.” Sarah Maza, professora da Northwestern University.

Nos salões da elite parisiense, aristocratas reuniam-se para discutir autores iluministas e a florescente Idade da Razão. Voltaire, Rousseau, novas vozes que apregoavam a liberdade, o controle do próprio destino, e acima de tudo, igualdade. A paixão por essa nova literatura era maior nas classes altas, mas as idéias do Iluminismo permeavam todos os níveis da sociedade, e o anseio por liberdade ameaçaria a visão aristocrática da vida.

“O que a tornava perigosa é que os privilégios dos aristocratas seriam questionados. Podemos tornar o mundo um lugar melhor? O progresso é possível? Tudo isso enfraqueceria a idéia de que a monarquia era algo natural, de que a aristocracia era natural, de que a hierarquia era natural.” Lynn Hunt, professora da University of Califórnia.

Para ver as idéias iluministas em ação bastava olhar além do Atlântico, onde os americanos lutavam por liberdade contra a velha inimiga da França, a Inglaterra. O jovem rei Luís queria vingança pelas derrotas do avô, e viu a sua chance na guerra das colônias americanas por independência. Ele empregou na causa um total de 2 milhões de libras, o suficiente para alimentar e alojar 7 milhões de franceses por 1 ano. O investimento marcaria o começo do colapso financeiro da França.

“A América levou a França à bancarrota, pois a dívida que ela contraiu para lutar a guerra americana foi crucial na situação financeira da França, porque a monarquia não podia pagar essa dívida.” William Doyle

Enquanto Luís enviava dinheiro e tropas além do atlântico, Maria contraía suas próprias dívidas. A vida em Versalhes era uma rotina interminável de rituais arcaicos e formalidades. Havia cerimônia para o despertar do rei e da rainha, para vestir-se, para jantar, para recolher-se à cama. A fim de se distrair em meio a tanto ritual enfadonho, Maria Antonieta presidia uma exibição de moda cada vez mais esdrúxula.

“Maria era obcecada por moda, especialmente por penteados que chegavam a ter metros de altura e que levavam horas e horas para serem feitos, com todo tipo de enfeites e frutas. Para muitos, pareciam uma obscenidade. Eles passaram a representar tudo que havia de errado com ela, e com Versalhes, e com aquela cultura.” Michael Farquhar

Maria se ocupava de fofocas da corte, jogatinas e peças teatrais. Com suas despesas se amontoando, ela recebeu o apelido de “Madame Déficit”.

“Maria recebeu o apelido de “Madame Déficit” pois o país estava no caos e ela gastava como se nada houvesse, em vestido, jóias e sapatos. Ela era a Imelda Marcos da sua época.” Michael Farguhar

De todas as dívidas de Maria, a maior era com o seu povo: um herdeiro para o trono. Nos 7 anos após o casamento, Luís e Maria ainda não haviam tido um filho. Maria achava-se em uma posição cada vez mais humilhante.

“A tarefa da rainha é produzir um herdeiro. É essencial que seja um filho; e o povo criticava insatisfeito, dizia que o rei nunca devia ter desposado uma austríaca e ele agora nem podia gerar um herdeiro para o trono.” William Doyle

Maria estava em uma situação desesperadora. O apetite de Luís por comida era voraz, mas por sexo nem tanto.

“Maria Teresa, mãe de Maria Antonieta, perguntava: ‘Se uma linda mulher como minha filha não o faz funcionar, o que está acontecendo?’” Evelyne Lever

“Luís XVI e sua esposa não tiveram filhos por 7 anos e isso lançou uma sombra sobre o início do seu reinado, pois seu hobby como serralheiro era bom conhecido e uma série de canções maliciosas fazia alusão ao serralheiro que não conseguia encontrar a fechadura .” Sarah Maza

O desinteresse de Luís por sexo era visto como falta de dignidade como rei. Após anos de frustração e pressão, constatou-se que Luís sofria de fimose.

“Luís tinha uma malformação que tornava a ereção muito dolorosa. Assim, só houve consumação quando uma cirurgia corrigiu o problema. Mas ele tinha pavor de submeter-se à cirurgia e levou anos até ele concordar em fazê-la. Quando ele finalmente a fez... "voilá!".”

Após uma cirurgia simples, o casal conseguiu ter sua primeira filha, Maria Teresa. Mas não bastou para concertar o estrago feito à imagem de Maria Antonieta. Calúnias circulavam pelo país, sátiras pornográficas do rei e da rainha, panfletos zombavam da impotência de Luís e retratavam Maria como uma meretriz promíscua em uma corte corrupta e decadente. A visão que o povo tinha da monarquia azedava a medida que a situação do país piorava. Más colheitas e corrupção haviam elevado o preço da farinha ocasionando a escassez do principal item da dieta francesa: o pão. Mas, é claro, que a carestia não cruzava os portões de Versalhes; enquanto a realeza vivia de modo extravagante, queixas eram designadas ao papel, e uma delas era diretamente dirigida à corte real: “Vocês sabem por que há tanta gente necessitada? Porque a faustuosa existência de vocês devora em um dia a substância de mil homens”. O autor dessa acusação? O mesmo rapaz que, poucos anos antes, regalara o rei e a rainha pouco antes da coroação, Maximilien Robespierre. Em Robespierre, o povo teria uma voz clamando por liberdade, igualdade e por revolução.


Capítulo 3
A queda da Bastilha

No fim do século XVIII, Versalhes era uma ilha de extravagância rodeada por um mar de carestia. E com um rei vacilante na direção, a França corria rumo ao desastre. Após 19 anos de casamento, Luís gerara 4 filhos, mas como rei continuava impotente. Em uma tentativa de reforma econômica, Luís meteu-se a fazer reformas econômicas. Mas sua intervenção equivocada onerou o povo com pesados impostos enquanto a nobreza nada pagava. Com a economia em ruínas e com o povo instável, parecia que até os céus estavam enfurecidos, unindo a França com o inverno mais frio em 90 anos.

"Se Deus já interviu para piorar uma situação foi no verão de 1788 e na primavera de 1789. No verão de 1788 havia uma crise política incipiente que se desenvolveu auxiliada por uma série de escassez de alimentos.” William Doyle

Para o povo francês, do século XVIII, farinha era a essência da própria vida e pão a medida da existência.

"Pessoas comuns na França comiam pelo menos 1kg de pão por dia. Pão era essencial, e seu preço era sentido por todos. Se o preço dobrava, havia problemas à vista."

Sob a péssima administração de Luís, o preço da farinha disparou. Havia pouco armazenamento de suprimentos, e o custo de um pão chegou logo a um mês de salário. A fome transformou-se em fúria. Tumultos irromperam por toda a França; casas foram roubadas, padarias saqueadas, e lojistas suspeitos de esconder pão eram linchados. Com a economia em frangalhos, os bancos forçaram Luís a contratar um ministro das finanças, Jacques Nacker. Pensador esclarecido, Nacker era popular junto ao povo de um modo que Luís nunca fora.

“Jacques Nacker foi o ministro mais popular na primavera de 1788 porque escrevia que era dever do governo assegurar que houvesse pão e grãos para todos.” William Doyle

Com a nação em meio a uma crise fiscal, Nacker fez com que Luís convocasse uma reunião dos representantes do reino, os Estados gerais. Era a primeira vez em 175 anos que isso ocorria.

“A França se organizava em três estados. Os primeiros dois estados da sociedade francesa, o clero e a nobreza, somavam 3% da população, e o terceiro estado somava 97% da população.” David Jordan, professor da University of Illinois

“Muita gente achava injusto que o terceiro estado, que era a maioria da população, tivesse apenas um terço dos deputados. Achavam injusto que nesse parlamento de 3 câmaras, 2 câmaras, a da nobreza e do clero, pudessem sempre ter mais votos que os comuns.” David Bell

4 de maio de 1789. Um jovem e talentoso advogado e político chegou a Versalhes. Maximilen Robespierre vinha participar dos estados gerais como deputado para lutar pelo povo que ele representava, o terceiro estado. Órfão provinciano, Robespierre elevou-se à notoriedade acadêmica graças a uma escolaridade prestigiosa, tornando-se um orador eloqüente com aparência afetada, nunca com um cabelo ou uma frase fora do lugar. De volta à sua cidadezinha natal Diarras, as idéias iluministas que ele absorvera nos salões de Paris acharam em Robespierre uma voz poderosa como advogado interiorano para os oprimidos.

"Quando ele voltou para casa e trabalhou como advogado ele estava lendo muito sobre o iluminismo. Quando Robespierre praticava lei em Arras procurava trazer as ideias do Iluminismo para seus casos."

Nos estados gerais, Robespierre e seus colegas exigiam que a nobreza pagasse impostos, mas Luís sentiu-se ameaçado pelo crescente radicalismo do terceiro estado. Então, em 20 de junho, após o impasse de 6 semanas, os deputados descobriram que haviam sido silenciados.

“Quando os deputados chegaram e viram as portas trancadas, suspeitaram de um complô. Foram então para a chamada quadra de tênis, que era na verdade uma quadra de handball, e se reuniram, jurando não parar de reunir-se enquanto não tivessem uma nova constituição.” Lynn Hunt

Os deputados se declararam a nova Assembléia Nacional, se declarando os verdadeiros representantes do povo da França.

“O juramento na quadra de tênis é um grande momento simbólico na história da Revolução Francesa. Havia pessoas reunidas nessa grande quadra de tênis erguendo os braços como numa saudação romana, e para a Assembléia Nacional foi o momento em que perceberam o próprio poder e dignidade e viram que podiam desafiar o rei da França.” David Bell

Em uma posição revolucionária de desafio, a Assembléia Nacional nasceu. Seria uma união de todo o país num parlamento cumpridor da vontade do povo. Mas, tomar o poder do rei não seria tão fácil quanto assinar uma proclamação.

“Todas essas vitórias em Versalhes são vitórias no papel, sem respaldo de armas. O medo dos deputados em Versalhes perto de julho de 1789 se devia ao rei estar reunindo suas forças para dispersá-los.” Jack Censer

No começo de julho, tropas reais de 30 mil soldados posicionaram-se ao redor de Paris. Para se defender, o povo formou uma nova guarda nacional, agitadores invadiram os arsenais do país e apoderaram-se de 28 mil mosquetes. A única coisa que faltava era a pólvora, e o povo sabia onde encontrá-la. No cento de Paris erguia-se uma maciça masmorra, notória como símbolo do governo feudal. A Bastilha. Essa prisão armazenava a pólvora da cidade e era lendária como antro de tortura e morte indizíveis.

“A Bastilha era o grande símbolo do despotismo real, símbolo da arbitrariedade dos reis da França. Símbolo de horror para o povo francês.” David Bell

Entre os agitadores houve um acesso de indignação. Luís demitiu o seu ministro das finanças, o bem amado do povo Jacques Nacker, visto como demasiado simpático às massas. Horas depois da demissão, os parisienses souberam que seu homem dentro do governo fora afastado. Foi a gota d’água. Em 14 de julho, turbas agruparam-se identificadas por um pequeno cocar, vermelho e azul pelas cores de Paris, separado por branco, a cor da casa dos Bourbon. Nascia a tricolor, o estandarte da atual república francesa. Entre a multidão exaltada, uma voz reverberou: “Para a bastilha!”.

“Atacar a Bastilha significava o povo de Paris dizendo: ‘Vocês não podem dissolver a Assembléia Nacional’. O povo agia, se aramava, e basicamente dizia: ‘Somos pela Revolução’”. Lynn Hunt

Ao ver a turba se aproximando, o governador da Bastilha, Bernard Delaunay tentou trancar a prisão. Ele montou uma defesa desesperada, mas os saqueadores invadiram e dominaram os guardas com facas e lanças. Por fim, Delaunay rendeu-se, mas a turba enfurecida arrastou-o pelas ruas. A horda escarnecedora chutava-o e feria-o até que ele gritou: “Deixe-me morrer!”. A turba fez sua vontade. Ele levou punhaladas e tiros e uma tradição revolucionária nascia. Sua cabeça cortada foi exibida na ponta de uma lança.

“Os deputados da Assembléia Nacional não condenaram esse ato. Na verdade, eles o aceitaram. E essa aceitação da violência popular na visão de algumas pessoas criou um padrão que teria conseqüências catastróficas no desenrolar da Revolução.” Sarah Maza

Com a fumaça ainda sobre a Bastilha, Luís XVI voltou de uma caçada. Em seu diário no dia 14 de julho de 1789 ele escreveu: “Nada.”, em referência à caça mal sucedida. Um criado veio informá-lo sobre os tumultos e a queda da Bastilha. Luís XVI perguntou: “É uma revolta?”, “Não majestade”, ele respondeu, “É uma revolução”.


Capítulo 4
O povo se arma

A tomada da Bastilha desencadeou a Revolução Francesa. O povo desafiara o seu rei e vencera. Não havia mais volta. Como símbolo da derrota da monarquia, o povo, homens, mulheres e crianças, demoliram com as próprias mãos a Bastilha, tijolo por tijolo feudal. Eles começavam a desmantelar o próprio passado.

“Os franceses demoliram a Bastilha o mais rápido que puderam, e na falta de explosivos poderosos, isso foi feito laboriosamente, mas com muito vigor, e os tijolos foram vendidos como emblemas do despotismo demolido.” Jack Censer

A energia das ruas revigorou a Assembléia Nacional. Uma nova constituição foi redigida chamada “Declaração dos Direitos do Homem”. Esse novo e ousado documento abolia arcaicas distinções de classe e considerava iguais todos os homens.

"A Declaração dos Direitos do Homem foi feita pela Assembléia. Dizia que a soberania pertencia ao povo, à nação. O rei não é mencionado nesse documento. Ao promulgá-lo, a Assembléia tomava o poder para si." David Bell

Com a nova Assembléia Nacional servindo-lhe de voz, os franceses puseram-se a mudar a estrutura do seu mundo. Exigiram uma monarquia constitucional, direitos iguais para todos e justiça sobre leis razoáveis. Para dar à Revolução uma voz mais ampla, Robespierre exigiu liberdade de imprensa, há muito negada pelo Velho Regime. A nova liberdade de imprensa foi liderada pelo L'Ami du peuple (amigo do povo). Jornal incendiário,cheio de ataques e provocação, foi fundado pelo ex-doutor Jean-Paul Marat.

Após uma sucessão de carreiras mal sucedidas, Marat viu-se na pobreza por vezes refugiando-se nos esgotos de Paris. Foi ali que contraiu uma dolorosa doença na pele que o deixava confinado a longas horas em um banho medicinal. Um Marat desolado e fracassado encontrou na Revolução a válvula de escape para seu veneno.

“Marat era um desses descontentes profissionais e infelizmente revoluções dão oportunidades para esses homens. Marat pegou toda a sua amargura e ressentimento e colocou-o num jornal muito bem-sucedido: L'Ami du peuple” Sarah Maza

“Marat era um homem cheio de raiva, basta ler o ‘Amigo do povo’ para perceber isso. Ele é totalmente paranóico, vê complôs em toda parte. Todo mundo está conspirando contra a revolução e a resposta é muito simples para ele: sangue. A resposta é: cabeças.” David Bell

Marat odiava a extravagância da monarquia em meio à miséria da França e precisava apenas de um boato para enxovalhar o rei e a rainha no seu jornal. Em 2 de outubro de 1789, seu ódio atingiu o clímax. Soube-se em Paris que o rei dera uma festa em Versalhes e que os decadentes cortesãos haviam atirado ao chão a nova bandeira tricolor e pisoteado o símbolo da revolução. Marat ficou enfurecido. Divulgou o insulto em seu jornal bem no instante em que uma nova ameaça se avizinhava. O rei novamente ordenara que tropas se posicionassem ao redor de Paris. Com o ataque à Bastilha ainda na mente do povo, Marat freneticamente o incitou a ação. “Povo de Paris, é hora de abrir os olhos, despertem de seu torpor, acordem! Uma vez mais acordem!”. 5 de outubro, o dia nasceu ao som de furiosas badaladas. Mulheres se agruparam na prefeitura para protestar pela falta de pão, e o medo pela aproximação das tropas reais, misturado à indignação pela festa ostensiva do rei, circulava pela multidão. Logo, milhares marchavam rumo à Versalhes empunhando lanças e revólveres. As mulheres levavam suas queixas ao rei.

“O núcleo da multidão era formado pelas famosas ‘poissardes’, as destemidas peixeiras do mercado central, conhecidas por sua robustez e coragem. Tinham enormes facas para descamar peixes, e eram muito fortes, porque carregavam caixotes. Era perigoso irritar essas senhoras.” Sarah Maza

“Eram mulheres dos bairros pobres. Mulheres pobres afetadas pela alta do pão e escassez de comida. De repente, elas percebem que precisavam agir. É extraordinário ver essas mulheres humildes que provavelmente mal sabiam escrever o próprio nome agindo como protagonistas do processo histórico.” Alan Woods, autor de “In defense of Marxism”.

No palácio, notícias da aproximação da turba enfurecida chegou aos aposentos da rainha. Segundo a lenda, foi então que Maria Antonieta disse “O povo não tem pão? Pois que coma bolo.”.

“Maria Antonieta nunca disse para que comessem bolo. Isso é um mito. Ela nunca reparou nos pobres do seu país o suficiente para dizer tal coisa.” Sarah Maza

Quando as mulheres chegaram aos portões, Luís compreendeu que a Revolução não podia mais ser ignorada, pois estava à sua porta. Ele concordou em subscrever a “Declaração dos Direitos do Homem”, mas a multidão continuou crescendo durante a noite. Pela manhã, 20 mil pessoas acampavam em frente ao palácio real. Para terminar com séculos de distância entre o rei e seus súditos, a turba irritada exigiu que o rei e a rainha se mudassem para Paris. Indeciso como sempre, Luís demorou a responder. Sua hesitação causaria fúria na multidão e colocaria em risco toda a família real.

“Quando elas não receberam de imediato o que exigiam, queriam massacrar a rainha.” William Doyle

A turba de mulheres invadiu o palácio exigindo o sangue da rainha. Elas massacraram os guardas decapitaram-nos e empalaram suas cabeças em lanças.

"Elas eram como Erínias gritando pelo palácio "Quero suas vísceras, sua cabeça, quero uma perna, um braço!" Estavam tão frenéticas que, se a encontrassem provavelmente a teriam feito em pedaços."

Apavorada, Maria fugiu para os aposentos de Luís momentos antes que as mulheres invadissem o quarto dela e fizessem sua cama em frangalhos. O rei e a rainha estavam agora à mercê da multidão, e o que a multidão queria era um pouco de atenção de seu rei.

“As mulheres só seriam pacificadas se a família real fosse para Paris, já que uma vez lá, o povo de Paris poderia dobrá-los à sua vontade.” William Doyle

Marcharam de Versalhes em número de 60 mil, em carros e com carroças cheias de farinha da dispensa real. A carruagem do rei foi escoltada até Paris.

“O rei e a rainha foram forçados a ir para Paris com as cabeças dos guardas linchados no palácio. Suas cabeças foram cortadas. Foi um momento de violência desenfreada. As cabeças foram maquiadas e exibidas diante do cortejo com o rei e a rainha seguindo atrás.” Evelyne Lever

O rei e a rainha foram instalados no palácio das Tulherias, eles nunca mais veriam Versalhes.

“Levada para Paris, a família real é prisioneira de Paris. Eles sabem disso, todos sabem disso. Há muitos limites para o que podem fazer, eles são prisioneiros da capital sem dúvida.” William Doyle

Versalhes foi abandonada e a Assembléia se mudou para Paris, o poder estava nas mãos do povo. A França teria uma democracia, novas leis, e um novo instrumento implacável de justiça estrearia no palco revolucionário: a guilhotina.


Capítulo 5
A Navalha Nacional

Maio de 1791. Cerca de 2 anos haviam passado desde que a família real e a Assembléia Nacional se mudaram para Paris. Robespierre aparecia frequentemente na Assembléia e no clube dos jacobinos, uma sociedade debatedora, assim chamada em alusão ao antigo mosteiro jacobino onde se reunia. As palavras eram agora as armas da Revolução, e Robespierre falava com grande autoridade moral. Sua preocupação sempre fora o povo, por isso, logo foi apelidado de “o incorruptível”. A França agora era uma monarquia constitucional com o rei forçado a dividir o poder com os revolucionários na Assembléia, mas o quinhão de Luís se diluía a medida em que era obrigado a assinar lei após lei diminuindo sua própria autoridade e a de outra instituição feudal, a Igreja Católica. Luís decidiu que chegara a hora de tentar fugir do confinamento da nova república e recuperar o seu reino.

“Luís decidiu em 1791, reassumir o controle do seu país. Ele sabia que só conseguiria com auxílio de exército estrangeiro. A idéia era fugir do palácio das Tulherias e se dirigir à fronteira mais próxima.” Sarah Maza

21 de julho de 1791. O rei e a rainha se disfarçaram de criados e, na calada da noite, escaparam do olho vigilante de Paris. Era um salto rumo à liberdade. Passava da meia noite quando a família real chegou à cidadezinha de Varennes, 160 quilômetros a leste de Paris. Estavam perto da fronteira com a Áustria a poucos quilômetros da salvação, mas não conseguiram ir além disso. Rumores da jornada dos monarcas os haviam precedido a Varennes. Um policial parou a carruagem e exigiu seus passaportes; as suspeitas do policial se confirmaram, era a assinatura do seu rei. Ele ficou subjugado pela presença do monarca, mas os guardas revolucionários não demonstraram igual reverência.

“Luís esperava que as pessoas iriam reconhecê-lo e que haveria uma rebelião a seu favor, mas para seu espanto e horror, elas não ficaram felizes ao reconhecê-lo. Elas o viram como fugitivo e ele foi preso e levado de volta para Paris.” Lynn Hunt

“A idéia de que o monarca tentou abandonar seu povo foi, psicologicamente, catastrófica. Esse acontecimento rompeu o laço entre Luís e seus súditos. Eles agora não tinham apenas um rei supérfluo, mas também um rei traidor.” Sarah Maza

Com a família real considerada traidora da revolução, o poder passou de Luís, agora o rei prisioneiro, para os revolucionários da Assembléia. No centro do poder revolucionário estava Robespierre. No pódio da Assembléia ele clamava por liberdade, igualdade e fraternidade. Exigia sufrágio universal e o fim da escravidão nas Índias ocidentais francesas, além de vigorosamente atacar a pena de morte, pois na nova era do Iluminismo, ele queria descartar todo resquício do passado medieval. A Europa herdara do período medieval um macabro repertório de técnicas de execução. Mortes cruéis por desmembramento, esquartejamento, enforcamento, afogamento e incineração.

“Sob o Antigo Regime havia uma profusão de punições atrozes. A decapitação era uma punição reservada para a nobreza, e a Revolução queria todos iguais na morte, queriam que a mesma punição fosse para todos.” David Bell

A despeito da oposição de Robespierre, uma nova máquina de matar estreou em Paris. O médico inventor Joseph Ignace Guillotin, concebeu uma implacável máquina degoladora que transformava as decapitações comuns em experiência humanitárias. Assim o doutor Guillotin descreveu seu novo invento para a Assembléia: “O mecanismo cai como um raio, a cabeça voa, o sangue jorra, a pessoa deixa de existir”. Sempre favorável ao derramamento de sangue, o jornalista Marat publicou em seu jornal um elogio ao invento, cujo nome anunciou como guilhotina. Em breve ficaria conhecido por outro nome, Navalha Nacional.

“Os revolucionários franceses crêem em valores humanitários, eles crêem que o sofrimento desnecessário deve ser evitado. O que eles gostam na guilhotina é que é rápida, é eficaz, e, ao que se sabe, embora ninguém tenha voltado para contar, é indolor.” William Doyle

A guilhotina silenciaria os inimigos internos da revolução, ou seja, qualquer um suspeito de planejar o retorno do rei ao trono. Mas eram os inimigos ao redor da França que mais preocupavam a Assembléia. Temia-se que os membros da família real que haviam fugido para a Áustria lançassem uma contra-revolução armada. A Assembléia optou por um ataque antecipado: uma declaração de guerra a Áustria. Mas Robespierre foi contra.

“Robespierre foi um dos únicos que se opuseram à guerra porque ele achava que o inimigo venceria. Ele temia que o país não estivesse pronto que não tivesse um exército capaz de derrotar o inimigo e que o inimigo viesse e destruísse a Revolução.” William Doyle

Robespierre perdeu o debate. Em abril de 1792, a Assembléia declarou guerra a Áustria, país governado por parentes de Maria Antonieta. O fervor nacionalista cresceu. Se a Áustria derrotasse o exército revolucionário, Luís recuperaria o seu trono. E Maria Antonieta era suspeita de ajudar o inimigo revelando as posições de tropas francesas. O rei e a rainha, contudo, fingiam aderir à Revolução.

"Luís e Maria Antonieta jogavam um jogo duplo. Eles pareciam dar-se bem com a Revolução. E ao mesmo tempo conspiravam contra ela. Eles tentavam sobreviver. Se formos generosos eles eram sobreviventes, mas do ponto de vista dos revolucionários eles eram mentirosos" Jack Censer

Com o exército francês sofrendo baixas nas fronteiras, chegou a notícia de que a Prússia se juntara à invasão. As tropas inimigas estavam sob o comando do general prussiano Duque de Brunwisck. A tensão se apoderou das ruas de Paris. Então os jornais publicaram uma carta do Duque de Brunwisck dizendo que, se algum mal adviesse ao rei e a rainha, todos pagariam um preço alto. O tiro, porém, saiu pela culatra. Em 10 de agosto de 1792, 27 mil parisienses tomados de indignação foram até o palácio das Tulherias e atacaram com selvageria os guardas do rei. No final do dia, o saldo foi de 800 mortos de ambos os lados. O rei buscou refúgio na Assembléia, mas a monarquia foi abolida. Luís foi oficialmente privado de seu título. Nascia a república francesa. A lâmina da guilhotina foi batizada com o sangue dos guardas sobreviventes de Luís. E Robespierre, outrora oponente da pena de morte, mudou de idéia. A nova república só podia nascer de fato com a morte de um rei.


Capítulo 6
A morte de Luís XVI

A macabra invenção do doutor Guillotin assombrava Paris como uma sombria advertência. Era o castigo por desafiar a lei e a ordem revolucionárias. Em agosto de 1792, com o rei deposto e a família real detida na prisão do templo, Robespierre e os jacobinos lutavam com os moderados da Assembléia, os girondinos, pelo controle do governo nacional. Mas nas ruas de Paris, havia um novo movimento político. Como símbolo de rejeição à tradição aristocrática, cidadãos comuns recusavam-se a usar culotes como os aristocratas e passaram a chamar-se de san culotte.

“Os san culottes consideravam-se o verdadeiro povo da França. Eles não eram os mais pobres. Eram artistas e lojistas bem de vida. Mas pelo menos alegavam trabalhar com as próprias mãos. Não usava, cutolles, como símbolo de que não eram aristocratas e que eram gente comum, do povo.” David Bell

Os sem culotes tomaram o controle da cidade de Paris, enquanto os jacobinos e girondinos controlavam o resto do país, desde a Assembléia Nacional, agora chamada de Convenção. A Convenção lutava com o acuado exército francês que perdia terreno para a Áustria e para a Prússia. Enquanto combatia os inimigos na fronteira, o governo revolucionário fechava o cerco contra os inimigos internos, traidores monarquistas desejosos de entregar Paris nas mãos dos invasores. Mais de 1000 pessoas foram presas. Padres, jornalistas, homens e mulheres comuns. Robespierre concentrou-se na crise interna, mas seu amigo, o ministro da justiça Georges-Jacques Danton, estimulava jovens e velhos para a batalha. Ele era expansivo e espalhafatoso, ao contrário de Robespierre. Em breve o nome de Danton ficou conhecido em toda Paris.

“Danton era um homem exuberante, cheio de vida e de energia, um tremendo beberrão e devasso que, embora oriundo das classes altas, podia identificar-se fisicamente com a classe operária.” Jack Censer

Com o avanço do inimigo, a retórica inflamada de Danton encorajava muitos a irem para a frente de batalha.

“No momento crítico em que a Áustria e a Prússia invadem, ele grita diante do povo de Paris: ‘De l’audace, encore de l’audace, toujours de l’audace et la patrie est sauvé’ (Coragem, mais coragem, sempre coragem e a pátria está salva) Ele é um dos que unem o país contra o inimigo”. David Bell

Com tantos homens capazes na frente de batalha, Paris foi deixada indefesa, seus cárceres repletos de prisioneiros políticos. Surgiu então o temor de que os detidos escapassem. Marat fez um sanguinolento apelo aos cidadãos para que descessem às prisões e matassem seus ocupantes.

"Os exércitos inimigos avançavam sobre Paris. Se chegassem à cidade, com esses inimigos da Revolução presos o resultado seria terrível, na opinião do povo." Allan Woods

Na primeira semana de setembro, péssimas notícias chegaram da frente de batalha. A Prússia tomara Verdun, cidade na estrada para Paris; o inimigo estava a poucos quilômetros. O medo transtornou o país. Os sem culotes invadiram os cárceres e atacaram furiosamente os prisioneiros, não deixariam nenhum traidor vivo.

“Os sem culotes foram às prisões, principalmente naquelas onde estavam padres, nobres e presos políticos estavam presos e começaram seus julgamentos sumários.” David Bell

Mulheres eram violentadas e brutalizadas, padres eram estripados, aristocratas esquartejados. A chacina deixou 1600 mortos em poucos dias. Quando a notícia do massacre de setembro chegou à Europa, os inimigos da Revolução ficaram enojados. Na Inglaterra o London Times deu voz a essa repulsa: “São esses os direitos do Homem? É essa a liberdade da natureza humana? Os mais selvagens tiranos quadrúpedes que povoam a África inexplorada são superiores a esses animais bípedes parisienses”. A Revolução tomou um rumo sem volta. Até Robespierre compreendeu que aquilo tinha ido longe demais, que o povo não podia controlar sozinho a Revolução. Eles precisavam de liderança, uma mão de ferro. Com o poder das suas palavras, o incorruptível surgiu como o homem capaz de guiar os rumos da Revolução. Robespierre apoiara outrora a monarquia constitucional, mas acreditava agora não haver espaço para o rei. Uma decisão inédita foi tomada: a França levaria seu próprio monarca a julgamento. Com o veredicto estipulado de antemão, restava apenas debater a sentença. Os moderados girondinos queriam poupar a vida de Luís, o que os isolou na Convenção.

“Os girondinos isolaram-se na Convenção por causa do rei pois embora certamente desejassem uma república estavam menos certos do que o rei devia morrer"

Os girondinos estavam em menos número do que os jacobinos, sedentos de sangue.

"Porque os jacobinos queriam matar o rei? Acho que porque, como brilhantemente disse Robespierre: ‘É preciso matar o rei para que a Revolução viva’. Se o rei está certo, então a Revolução está errada."

"Em qualquer sistema, sempre houve uma pena para traição: a morte. Se o rei era culpado de trair o país em tempo de guerra, ele tinha de padecer a morte de um traidor.” William Doyle

Em 20 de janeiro de 1793, Luís XVI foi declarado culpado e sua sentença foi lida: morte ao rei. Naquela noite ele se reuniu com a família brevemente. Calmo diante das lágrimas da família, ele prometeu voltar na manhã seguinte para o último adeus. Não voltou. Não podia sofrer o pesar da família, nem fraquejar a caminho da guilhotina. Pela manhã, uma carruagem levou Luís ao cadafalso. Ele se dirigiu estoicamente para a lâmina. Tentou fazer um discurso: “Esperei que minha morte fosse pela felicidade de meu povo. Mas pranteio a França e temo que padeça sobre a ira do Senhor.”. Foi silenciado, porém, pelo rufar dos tambores. Às 10:22 da manhã, o homem que outrora fora rei não era mais nada. Na prisão do templo, Maria ouviu o povo comemorando a morte do seu marido e desmaiou de desespero. O rei estava morto, os revolucionários vitoriosos. Mas os inimigos da Revolução também teriam uma vitória. Seu alvo era o homem que clamava pelo rolar de tantas cabeças, Jean-Paul Marat.

Capítulo 7
As mortes de Marat e de Maria Antonieta

A execução de Luís XVI marcou a vitória definitiva dos revolucionários. Foi o momento em que uma jovem nação, a república francesa, literalmente, nasceu do sangue. No final de 1792, os radicais jacobinos, crentes de que a Revolução corria risco de ser sabotada por traidores, dirigiam-no por meios cada vez mais violentos. Mas os girondinos, representantes da população rural francesa, queriam a diminuição da violência, que podia gerar uma guerra civil. Seu maior oponente, Jean-Paul Marat atacava os girondinos furiosamente em seu jornal, denunciando os que ele achava que conspiravam contra a Revolução.

“O jornalismo de Marat tinha um princípio básico: seja mais extremado que todos e clame pela morte de pessoas. Ele vive dizendo que se cortássemos algumas cabeças, tudo ficaria bem. E se não ficasse bem, mais algumas cabeças fariam ficar bem. De repente pessoas começaram a massacrar pessoas em Paris e Marat era sem dúvida o principal responsável por aquelas mortes.” William Doyle

Mas o movimento radical não dominava em todo lugar. As pessoas que viviam fora de Paris estavam furiosas com as mortes causadas pelos jacobinos e queriam o fim da carnificina. A mensagem chegou a Charlotte Corday, uma brava e determinada jovem da província.

“Charlotte Corday era uma pessoa comum da cidade de Caen. Estava horrorizada com a matança por lá e considerava Marat o principal responsável por ela. Ele era o principal representante do lado radical da Revolução. Seu L’Ami du Peuple continuava exigindo cabeças.” Jack Censer

30 de julho de 1793, Corday chegou a Paris. Ela sabia que o amigo do povo permitia livre acesso à sua casa, onde podia ser encontrado a qualquer hora submerso em seu banho medicinal. Corday veio com o pretexto de ter uma lista com supostos traidores que colaboravam com exércitos estrangeiros para por fim à Revolução. Marat pediu a lista prometendo a Corday que os traidores seriam guilhotinados no dia seguinte.

“Ela deu a lista, então sacou um pequeno punhal e apunhalou-o no peito.” Jack Censer

O chamado amigo do povo estava morto, a voz enraivecida de seu jornal silenciada.

"A Revolução ficou sangrenta, e foi fácil botar a culpa em Marat. Era o que as pessoas que o odiavam e temiam diziam e foi por isso que Chalotte Corday o assassinou em 1793. Ela o via como responsável por muitas das atrocidades ocorridas."

Charlotte nem tentou escapar. Em seu julgamento ela não se arrependeu. Perguntaram-na: “O que esperava obter assassinando Marat?” - E ela respondeu: “Paz, agora que ele está morto a paz voltará ao meu país.” Corday foi sumariamente executada e seu sonho de paz foi junto com ela. Corday havia matado Marat o homem, mas havia criado Marat a lenda, cuja morte foi retratada de maneira célebre pelo pintor revolucionário Jacques-Louis David.

“Ele se tornou um mártir, quase uma figura religiosa. Havia cenas no funeral dele em que a banheira onde ele foi morto era posta no altar como se fosse um crucifixo.” David Bell

“No quadro que David pintou de Marat, o corpo de Marat está na mesma posição que o corpo de Cristo nas pinturas clássicas de Pietá, de Cristo sendo tirado da cruz.” Sarah Maza

Robespierre invejava a fama de Marat, porém, sempre mais pragmático, voltou sua atenção para assuntos mais urgentes, pois embora Marat estivesse morto, havia outros clamando por sangue. Sangue real. Na conciergerie, na antecâmara da morte, 8 meses após a execução de seu marido e dias depois da morte de Charlotte Corday, Maria Antonieta foi encarcerada em uma imunda cela totalmente só.

"Uma das piores coisas para Maria após a execução de Luís foi que seus filhos foram afastados dela. Seus filhos eram a coisa mais importante para ela e ela sabia que seu filho seria submetido a maus tratos para esquecer que era um príncipe. E ela estava certa. Em dois anos o seu filho morreu devido a abandono e maus tratos " Michael Farguhar

A outrora frívola Maria tinha apenas 38 anos, mas a Revolução a envelhecera precocemente.

“Maria Antonieta fora muito elegante até a Revolução. Depois de 1788, ela emagreceu e ficou com os cabelos brancos. Ela abandonou seus enfeites e coisas bonitas. Ela se tornou emaciada. Quando ela chegou ao seu julgamento, estava irreconhecível.” Evelyne Lever

Em 15 de outubro, Maria foi julgada e condenada por alta traição e por espoliar o tesouro nacional. As evidências não passavam de rumores indecentes, e uma calúnia final foi adicionada à lista: acusaram-na de incesto com o próprio filho. Diante disso Maria ergueu-se para se defender: “Apelo à consciência e ao sentimento de cada mãe presente para que não estremeça à idéia de tamanhos horrores.”

“Naquele momento houve uma mudança nos ânimos, pois todas as mulheres sentiram-se implicadas e viram que haviam ido longe demais nas acusações.” Evelyne Lever


Em um momento de simpatia pública, Maria achou que podia ser deportada para a Áustria, mas suas esperanças caíram por terra quando a sentença foi promulgada. Ela teria o mesmo destino do seu marido.

"Maria Antonieta estava condenada desde o princípio. Ela simbolizava a aliança com a Áustria, desastrosa para França. Ela e o marido eram motivos de chacota, pelo fracasso sexual e ela era símbolo da corte num tempo em que se via cortes como corruptas, más para o país. Por isso ela era odiada como nenhuma rainha da França foi. Ela era execrada, difamada."

De sua cela, Maria escreveu sua última carta prometendo ao marido e aos filhos ser corajosa. Seu longo cabelo grisalho foi cortado, preparado para a lâmina. Suas mãos foram atadas. Escoltada até os portões da prisão, ela esperava uma carruagem, assim como o rei, mas uma carroça para prisioneiros comuns a aguardava.

"Levada à execução, ela esperava receber tratamento igual ao rei. Que iria numa carruagem fechada, protegida da multidão. as ela foi numa carroça aberta, e gente gritava-lhe impropérios."

Mera sombra da monarquia de outrora, Maria Antonieta manteve régia dignidade ao ser exibida à multidão pelas ruas de Paris. Seu nome e as acusações sobre ela foram lidas. A última rainha da França estava morta. Muitos dias depois, após inúmeras execuções, um membro da Convenção Nacional lamentou o desperdício de vidas, tendo perdido um colega após outro para a guilhotina. Ele disse: “A Revolução é como Saturno devorando os próprios filhos”. Danton respondeu: “Revoluções, meu caro, não podem ser feitas com água de rosas.”. A carnificina estava apenas começando.

Capítulo 8 
O Terror

Setembro de 1793, 4 anos sob a Revolução e a França estava dividida. Havia insurreições violentas nas províncias e enormes derrotas nas fronteiras na guerra contra a Europa. Em uma dessas, a Inglaterra tomou a cidade portuária de Toulon. A Europa devorava a França pelas fronteiras.

"A França era o país maior e mais populoso da Europa Ocidental. Quando ela entrou na Revolução, muito inimigos tradicionais e muitos aliados tradicionais, disseram: "Ahá, é nossa chance não de tirar uma pedaço da França mas de enriquecer e debilitá-la permanentemente." David Bell

"A França estava isolada da Europa. Sofria bloqueio da Inglaterra. Era atacada e invadida pela Áustria e Prússia. Os parisienses temiam uma vitória cntra-revolucionária que causaria um banho de sangue." Alan Woods

Danton e Robespierre, principais oradores da Convenção, perceberam que precisavam atacar para salvar a Revolução. Convenceram os colegas a aceitarem uma nova forma de legislação. “É hora de todos os franceses gozarem de sagrada igualdade. É hora de impor essa igualdade através de atos de justiça contra traidores e conspiradores. Que o Terror seja a ordem do dia.”. Assim começou um novo capítulo na Revolução, um período de violenta repressão chamado “O Terror”. Em uma notável contradição, os revolucionários suspenderam a nova constituição e todos os direitos que ela garantia. Espiões espalharam-se pelo país. Qualquer suspeito de atividade contra-revolucionária era preso, julgado sumariamente e sentenciado à Navalha Nacional.

“O Reinado de Terror surgiu como um governo de emergência. Terror, para eles, era inspirar terror aos inimigos da república. Estes seriam aterrorizados ou presos e executados.” Sarah Maza

A menor suspeita podia mandar alguém para o cadafalso. Políticos que dissessem algo gentil sobre o monarca defunto, qualquer um que empregasse o formal monsieur ou madame ao invés da nova forma de tratamento cidadão ou cidadã. A paranóia estava no ar. Vizinhos denunciavam vizinhos. O rolar das carroças da morte ressoavam em Paris.
"A execução pendia sobre as cabeças das pessoas. Havia espiões da polícia por toda a parte. Ficavam na fila do pão ouvindo o que as mulheres diziam e as denunciavam se não gostassem. Era-se denunciado não só por reclamar do preço do pão, mas por não ser entusiasta o bastante sobre a situação e os rumos da Revolução. Qualquer coisa que uma pessoa dissesse poderia causar-lhe problemas.” Lynn Hunt

A Convenção instaurou o tribunal revolucionário que expedia julgamentos e execuções com impiedosa eficácia. Para consolidar o poder, formou-se um comitê de 12 homens chamado Comitê de Salvação Pública.

“O poder tinha de ser delegado a um grupo menor e esse grupo tornou-se o Comitê de Salvação Pública. Doze pessoas que governavam o país como uma ditadura coletiva.” David Bell

Com seu discurso magistral e voz revolucionária, Robespierre destacou-se como a voz digirenge do Comitê. E essa voz clamava por mais sangue.

"Uma das ironias na vida política de Robespierre é que no começo ele era opositor ardoroso da pena de morte. Isso foi jogado na casa dele mais tarde quando ele se tornou defensor do Terror e da guilhotina. Ele nunca respondeu a isso a não ser: 'Os tempos mudaram'." David Jordan

A Revolução endurecera Robespierre. Outrora defensor da liberdade de imprensa, ele reativou a censura, vestígio do Antigo Regime. E com a Igreja sob ataque, permitiu que um dos revolucionários mais radicais propusesse um novo programa: a descristianização.

“Com a crise da guerra e a rebelião interna no auge, alguns começaram a dizer que a causa era a religião, eram os padres. Achavam que para ficar a salvo contra inimigos da Revolução haviam que destruir o poder da Igreja. Superstição, fanatismo, ela representava isso para eles e por isso achavam que precisavam eliminá-la por completo.” William Doyle

Ruas com nomes de santos foram renomeadas, ícones religiosos foram destruídos e substituídos por tributos ao novo santo: Marat.

“A Igreja passou a ser inimiga dos revolucionários radicais. Igrejas e catedrais foram privadas de seus altares, vitrais e estátuas foram quebradas, a riqueza da Igreja foi levada embora. É claro que para a Europa, isso foi mais chocante do que a morte do rei.” David Bell

Nem o calendário cristão foi poupado. Os anos não eram mais contados a partir do nascimento de Cristo, mas desde setembro de 1792, a queda da monarquia. Agora era o ano 1. Os meses foram renomeados de acordo com as estações: julho tornou-se Termidor, abril, Floreal. Os meses foram divididos em 3 semanas de 10 dias cada.

“O calendário revolucionário era uma arma contra o cristianismo. Em uma semana com 10 dias não havia domingo. Então as pessoas não sabiam mais que dia era domingo. Era o que eles esperavam.” David Bell

O Terror espalhou-se pela França. Insurreições eram reprimidas com implacável crueldade. Na cidade de Lyon, onde os contra-revolucionários ganhavam terreno, o Comitê de Salvação Pública instaurou um exemplo brutal. Centenas de rebeldes foram amarrados, levados aos campos e massacrados. A região de Rouen, no oeste da França, tornara-se outro baluarte contra-revolucionário. Rebeldes e padres eram postos em barcos amarrados e atirados nos rios. Mais de 100 mil pessoas foram mortas só em Rouen. A guilhotina em Paris caía em um ritmo cada vez mais frenético. Mas, os exércitos franceses por fim, obtinham vitórias nas fronteiras. Sob o comando de um jovem e brilhante general, Napoleão Bonaparte, o exército francês forçou a marinha inglesa a uma humilhante retirada em Toulon. A Revolução estava em alta. Robespierre estava no auge do seu poder. Removera os inimigos da Revolução, assegurando-lhe o sucesso. Graças ao Terror.

"Por algum tempo o Terror foi muito eficaz. Um meio de unificar o país e o governo e lutar uma guerra em várias frentes de batalha na fronteira leste e norte. Uma sangrenta guerra civil em Vendeé contra revolucionários que se voltaram contra Paris. "

O Terror atingira seus objetivos, mas não teria fim. E não teria fim até devorar o próprio homem que o desencadeara, Maximilien Robespierre.


Capítulo 9
O Fim

Com o sangue do Terror, Maximilien Robespierre salvara a Revolução. Um exército revigorado repelia os ataques na fronteira e disputas internas estavam aniquiladas. No apogeu de seu sucesso, Robespierre sonhava em usar o Terror para um objetivo mais ousado: moldar um novo tipo de sociedade, uma República da Virtude.

“Por virtude, ele entendia virtude cívica. Era um princípio importante para Robespierre. Para ser um cidadão virtuoso não bastava obedecer leis, era preciso estar envolvido no trabalho do Estado, e isso incluía, para Robespierre, destruir os inimigos do Estado.” David Jordan

Em 5 de fevereiro de 1794, Robespierre esboçou sua filosofia em um discurso: “Terror sem virtude é desastroso, mas virtude sem Terror é impotente.”

“Ele associava Terror com virtude. Terror na cabeça dele era um instrumento para criar virtude.” David Jordan

Outros, porém, discordavam. Para Danton, a Revolução seguia o caminho errado. Ele e seus seguidores, os dantonistas, achavam que o Terror devia acabar. Ele já servira ao seu propósito, e achava que poderia voltar-se contra os revolucionários.

“Na primavera de 1794, as coisas começavam a melhorar. A situação da comida não estava tão ruim, e o esforço de guerra estava bem melhor. Danton dizia que o governo precisava de uma nova diretriz. Era preciso promover algum tipo de normalização, mas Robespierre achava cedo demais. Danton então, organizou um grupo para debater o fim do Terror. Robespierre veria isso como uma ameaça direta ao governo, como traição em potencial.” Lynn Hunt

Na república da virtude de Robespierre só havia uma resposta à traição. Os dantonistas foram presos e rapidamente condenados à morte. Robespierre já enviara milhares ao cadafalso, mas sentia-se desconfortável com essas execuções. Não assistira à decapitação de antigos amigos e aliados. Subindo à guilhotina, Danton gritou: “Meu único pesar é que vou antes desse rato do Robespierre.”. Com os dantonistas fora do caminho, Robespierre lançou a França num período ainda mais sinistro e violento: o Grande Terror.

“O Grande Terror é o nome da última fase do Terror, da primavera ao verão de 1794. É o período em que as execuções realmente se multiplicam e no qual o clima de paranóia em Paris e em toda a França começava a crescer exponencialmente. As execuções chegavam a 800 por mês em Paris.” David Bell

Mas em 6 de junho de 1794, o rolar das carroças silenciou e a guilhotina ficou imóvel. Robespierre promulgara um novo feriado religioso: o Festival do Ser Supremo. Ele queria substituir o antigo deus católico por um novo, a Deusa da Razão.

“Ele patrocinou esse culto ao Ser Supremo em junho de 1794, com coros de gente vestida de branco e uma montanha de papel machê no centro de Paris. E num momento crítico da cerimônia, o próprio Robespierre emergiu do topo dessa montanha trajando uma toga, e descendo. Nesse momento muita gente deve ter pensado: 'Certo, quem ele pensa que é? Deus ou o rei?' ” David Bell

Enquanto o Grande Terror prosseguia, os colegas de Robespierre viam o festival do ser supremo como o divórcio entre ele e a realidade. E mais uma vez, as suspeitas de Robespierre se voltaram contra os mais próximos a ele. Em 27 de junho, então 9 de Termidor, ele veio perante a Convenção e fez um discurso cheio de ameaças. Seria o seu último discurso. No dia seguinte, quando voltou à Convenção para divulgar uma suposta lista de inimigos da república, um coro de vozes silenciou o atônito Robespierre. Os deputados o declararam fora da lei e o removeram da Convenção. Robespierre e seus associados foram levados à prefeitura onde ficaram sob custódia durante a noite. Tiros ressoaram ao amanhecer e guardas correram para o segundo andar. Escancarando as portas depararam-se com uma cena grotesca. Um dos aliados de Robespierre jogara-se pela janela, outro metera uma bala na cabeça. E Robespierre fora achado inconsciente com um tiro no rosto e sua mandíbula despedaçada por uma aparente tentativa de suicídio. Ele passou suas últimas horas sob a mesa do Comitê de Salvação Pública, na mesma sala onde comandara o Terror em seu mais sangrento ápice. Ridicularizado e insultado pelos colegas, era incapaz de responder. O grande mestre da oratória fora silenciado.

Na conciergerie, onde a última rainha da França o precedera, Robespierre fora preparado para a Navalha Nacional. Seu colega de cela, o revolucionário, Saint-Just apontou para um pintura dos Direitos do Homem e disse "Pelo menos fizemos isto". Robespierre havia liderado a revolução e mudado a cara da França. Havia reorganizado a sociedade e concebido um sistema tirânico e sanguinário para assegurar o seu sucesso. Mas estava destinado a ser sua última vítima.

“Todos queriam acabar com o Terror, mas ninguém sabia como. A única maneira de por fim ao Terror a qual todos concordaram seria a queda de Robespierre.” David Jordan

Em 27 de julho de 1794, a guilhotina caiu sobre o incorruptível e o último sangue do Terror foi derramado. O Terror morreu com Robespierre, mas não a Revolução. Os direitos do homem, a democracia, a nova república. As realizações da Revolução viveriam bem mais que os revolucionários. A França viveria um momento de incerteza, paralisada com medo de outro Terror ou do retorno da monarquia tirânica que o precedera. Cinco anos de estagnação se passariam antes que o poder de novo se consolidasse novamente nas mãos de um único homem: Napoleão Bonaparte. Historiadores discordam sobre o fim da Revolução; Alguns acham que ela morreu com a ascensão de Napoleão, outros creem que els se estendeu até o século XIX e mais além.

“A Revolução foi o primeiro modelo durável de um povo decidindo seu próprio destino. A idéia de que os súditos da mais antiga, mais consolidada, da mais gloriosa monarquia da Europa podiam decidir reescrever totalmente a própria história foi algo que teve incrível repercussão.” Sarah Maza

A Revolução destruiu o antigo sistema feudal europeu e mudou para sempre o rumo da civilização no ocidente.

“A grande questão levantada pela Revolução Francesa é: quanta violência é justificável por uma sociedade melhor? Se as pessoas têm o direito de abolir um sistema injusto e substituí-lo por um que acham mais justo quanta violência é justificável para se fazer isso? Ainda nos deparamos com essa questão hoje em dia.” Lynn Hunt

Enquanto Robespierre e seus colegas dirigiam seu país rumo ao futuro, muitos devem ter se perguntado o que este reservava. Mais de 200 anos após o nascimento da república francesa, o fantasma de Robespierre assombra revoluções, desde a Rússia até o Vietnã, da China à América Latina. A experiência francesa de democracia inspirou modelos pelo mundo inteiro. Onde quer que a tirania se manifeste, o clamor por justiça continuará exigindo liberdade, igualdade, fraternidade e revolução.


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History Channel
The French Revolution (TV 2005)
Director: Doug Shultz
Writers: Thomas Emil, Alexander Emmert, Doug Shultz, Hilary Sio
Release Date: 17 January 2005 (USA)

Links para download:
http://www.bestdocs.com.br/2009/02/revolucao-francesa.html
http://www.factoryfilmes.net/documentario-revolucao-francesa-legendado-download
http://filmescomlegenda.net/fcl/filmes/a-revolucao-francesa-the-french-revolution-2005-dvd-rip/

Texto:
http://andrehenriquerodrigues.blogspot.com/2010/07/revolucao-francesa.html
Editado por Hetalia074BR

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